7 de set de 2009

PARATI, ARAQUARI ... O REPICAR DOS SINOS

Olá amigos ... Mensageiros ! Eis o que eram ! Sinos ouvidos, queridos, ainda lembrados. Parece que falavam com o povo. Sons festivos e esperados. Êles eram sempre assim ! o repicar dos sinos da Igreja do Senhor Bom Jesus de Araquari, cobria a cidade. Pode até ser que existam, mas até aqui nunca soube de sinos que do alto de seu campanário conseguissem passar à todo um povo e todos os dias, mensagens de tanta força, alento, paz e esperança. O que aconteceu com seus sinos Araquari ? Conversavam com os seus e com os que não eram seus. As crianças alegravam-se. Seus pais, enternecidos, emocionavam-se. Os pais de seus pais, saudosos, comoviam-se. No meio dàquela gente simples, da pesca, das madeireiras, da prefeitura, do DER e da estrada de ferro, estavam os que faziam repicar àqueles sinos. Não saberia dizer agora, como àqueles homens faziam para se organizar em rodízio, de maneira que todos que dominavam a dinâmica do "toque repicado" pudessem ter o seu dia da semana para fazer ecoar por toda cidade os festivos sons dos mais conhecidos sinos de toda região. Nunca, em momento algum, soube de alguém que estivesse declarando-se perturbado ou de alguma forma prejudicado pelos toques dos sinos de Araquari. Meus pais nasceram, cresceram e casaram ali. Seus primeiros filhos nasceram ali. Mais tarde, mudaram-se para Joinville onde viveram a vida. Eu e os demais irmãos que vieram depois, nascemos todos em Joinville. Ainda assim, quando menino, por uns dois anos vivi em Araquari com meus avós paternos. E gostei ! Estudei lá. Grupo Escolar Almirante Boiteux (Boatê). Dona Linda Sprotte foi minha professora. A escola era e ainda é, bem junto da igreja. Tenho os sinos e os seus sons muito claros em minha lembrança. Já andei um bom bocado em minha vida e jamais, em lugar algum, tive o prazer e alegria de ouvir sinos com o jeito e os sons dos sinos de Araquari. Era costume de nossa família participar todos os anos, da tradicional festa do Senhor Bom Jesus. Num daquêles anos que lá estávamos, meu pai sabendo de meu encanto pelo som dos sinos, levou-me para que eu o visse tocando-os em companhia de um amigo. Subimos o campanário da igreja e a boa distancia dos sinos mas com visão de tudo, meu pai recomendou-me que ali eu ficasse. Fiquei ! Mas estava ansioso ! Levantei o olhar e contemplei três sinos. Vi quando êle, mais o amigo, ajeitavam-se buscando o melhor posicionamento para acioná-los. Ali, nàquele tempo era assim: Um dos tocadores subia em uma pequena escada, talvez um dois metros... e ficava de costas prá ela e nela se firmava. Entre dois sinos pouca coisa acima da cabeça e com os braços levantados, segurava um dos badalos com a mão esquerda e outro com a direita. Êsse sinos não eram grandes. Mas tinham um som excepcional e eram de fácil domínio tanto de um lado quanto de outro. Êsse tocador já estava no ponto "prá trabalhar", prá repicar. O terceiro sino, era o maior dêles. Mas exigia menos. Era bem melhor e menos cansativo lidar com êle. Amarrada ao badalo, uma corda de sisal não muito grossa, nem muito comprida. O seu tocador, ficava em pé, próximo da escada dos dois sinos repicadores. Nàquêle dia, o amigo de meu pai iria repicar. O homem era muito bom e repicava bonito. Meu pai ficaria com o sino maior. Êle funcionava como um contrabaixo ou um surdo de marcação (compasso). O que se ouvia primeiro, era uma espécie de "ritual" que antecedia o som dos três sinos "trabalhando" juntos e harmoniosamente. Eram batidas lentas, fortes, tremidas e entremeadas pelo som do sino maior que preenchia o espaço "vazio" com sons graves e precisos. Só isso, que espalhava-se prá todos lá fora, sabe Deus até onde, já era lindo de se ouvir. Em seguida a êsse "aquecimento", que ouso dizer, ... já era bonito, artístico, os sinos de Araquari tomavam conta da cidade. E ela mudava. Se revigorava. Ficava feliz. Eu vi, ouvi e nunca esqueci. Por ser criança, não pude avaliar, definir direito, na época, o que sentia. Hoje sei: Era um bem estar divino. Uma divina emoção. Uma coisa muito boa... marcante. Meu pai talvez não tenha percebido que eu o olhava com orgulho. Vi sua alegria e percebi que como eu, ficava feliz, emocionava-se ao acompanhar tocando o sino maior, o repicar magistral executado por seu amigo nos dois sinos menores. Ah... Araquari, não sabes o que perdeste ! Desde teus tempos de Parati, quando êsse era teu nome e mesmo depois que passastes a ser Araquari, teus sinos te embalaram. Quem silenciou teus sinos ? E porque ? Sempre foram, àquêles três sinos, peças de valor histórico. Vivas, ... integravam a tradição religiosa da cidade. Porque teu povo, submisso, quedou-se vencido ante uma decisão infeliz e injustificável ? Desde que, Araquari, calaram teus sinos, nunca mais fostes o que eras. Te entristecestes ! Debilitaram teu entusiasmo, decretaram teu desencanto. Arrefeceram tua fé. Abriram em ti uma ferida doída, difícil de curar. E teus sinos, Araquari,... porque não são mais como eram ? Onde estão ? Existem ainda ? Mandaram prá outro lugar ? Venderam ? Derreteram ? O que fizeram com êles ? Ao relembrar o repicar musical dàquêles três sinos, parece que vejo meu pai ali, junto dàquêle amigo, ... feliz ! Quero guardar essa lembrança. E ao contrário dos sinos que calaram, meu protesto veemente, não calarão. E tenho aqui a certeza: O dobrar inesquecível de teus sinos, sempre foram PARATI... ARAQUARI ! Mais que entristecer uma alegria, machucaram um bem precioso, ... afrontaram um sentimento sem preço ... Imperdoável insensatez !!!